Catarata

Correção de defeitos visuais após a cirurgia de catarata
Dr. Durval M. Carvalho
Especialista em catarata e glaucoma

Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Catarata e Implantes Intraoculares, e autor dos livros “Cirurgia de Catarata – Fixação e Implantes Secundários” e “Futebol – Melhore sua Performance Treinando a Visão”, o oftalmologista Durval Moraes Carvalho fala sobre a indicação das lentes suplementares e como elas podem auxiliar os pacientes que se submeteram à cirurgia da catarata a se libertarem ou, ao menos, se tornarem menos dependentes do uso do óculos.

Antes da cirurgia de catarata
A catarata atinge o cristalino, que vai embaçando, aí nós o retiramos e implantamos uma lente intra-ocular. Antes da implantação de uma lente dentro do olho, o que começou a ser feito no início da década de 80, quando a catarata era retirada, não se colocava nada em seu lugar, e como a catarata é identificada como uma lente de, geralmente, 22 graus, o que se fazia era prescrever um óculos “fundo de garrafa” para compensar a retirada do cristalino do olho. Uma das razões que nos levava a operar só quando a catarata estivesse muito madura, ou seja, com o paciente quase cego, era que usar um óculos de 12 graus era melhor que não enxergar.

A cirurgia de catarata
Como o cristalino normalmente tem em torno de 22 graus numa pessoa normal, o grau dessa lente artificial intra-ocular também é nessa faixa. A cirurgia de catarata bem indicada e bem feita busca restaurar a visão sem a necessidade de correção ótica com óculos, após a cirurgia. No entanto, algumas pessoas ainda precisam usar óculos, tanto para corrigir problemas como miopia, hipermetropia, astigmatismo, presbiopia, que já estavam presentes antes do procedimento, como para corrigir novos problemas visuais, que surgiram após a cirurgia de catarata.

Por exemplo, se o olho tem uma deformidade, como o astigmatismo, fica difícil no meio das cicatrizes medir que grau ele tem. Depois da operação da catarata, quando vai se avaliar o resultado, o paciente tem dois graus de astigmatismo. Para operar a miopia e o astigmatismo da córnea de um olho que já passou por uma cirurgia, já está cheio de cicatrizes, é complicado e, se o paciente quer se tornar mais independente do uso de óculos e de lentes de contato, então o melhor é indicar o uso das lentes suplementares.

Lentes suplementares
Com a tecnologia a favor, podemos optar por fazer o implante de uma segunda lente aprimorada e sofisticada – especialmente projetada para estas situações. As lentes suplementares, que já foram liberadas pela Anvisa, são lentes finas e de graus menores, já produzidas de modo a se acoplarem em cima da lente que está dentro do olho. É bom lembrar que existem no mercado dezenas de modelos de lentes intraoculares, que podem corrigir miopia, astigmatismo (tórica) hipermetropia, a presbiopia (bifocais) inclusive lentes acomodativas que podem ter graus diferentes, cores ou filtros diferentes com modelos e materiais diferentes mas, o que estamos falando agora é de um novo universo de lentes que podem ser implantadas para complementar estas outras que já foram implantadas Assim, fica possível implantar a lente com o grau preciso porque irá complementar aquele que já está implantado. Hoje nós dispomos só de uma fábrica, na Inglaterra, produzindo estas lentes.

As lentes suplementares são produzidas com as opções de compensar pequenos graus de miopia e também as hipermetropias. Já está disponível a bifocal para quem arrependeu de ter implantado uma lente simples e as lentes tóricas que permitem corrigir, além do grau (hipermetropia ou miopia), o astigmatismo residual. Este tipo de lente tórica é muito indicado nos operados de catarata mas que previamente já teve problemas na córnea devido à cirurgia refrativa com diamante (para miopia). O astigmatismo é quando o olho tem uma deformidade, não apresenta um formato esférico. Este defeito no olho provoca uma deformidade na imagem tanto de perto como de longe, fazendo com que a imagem enviada para o cérebro seja vista de forma errada. A lente tórica tem uma forma que neutraliza aquela ação deformante do olho astigmático.

A lente suplementar intra-ocular bifocal, como o próprio nome já diz, procura conseguir um foco para longe e outro para perto, sem que um atrapalhe o outro. Por exemplo, o paciente depois de operado ficou bom para ver longe, mas ruim para ver perto, a lente bifocal poderá ter zero grau para longe e dois graus para ver perto. Assim, ele vai precisar do óculos só para a visão intermediária, pelo menos para sair, para dirigir, para a leitura, já não vai mais depender do óculos. Com essa lente bifocal, a pessoa já pode ir para uma festa, ler o cardápio e reconhecer as pessoas, por exemplo. 
 
Muito em breve teremos no mercado brasileiro uma lente suplementar tórica bifocal; esta lente é aguardada com grande expectativa porque será uma das soluções para complementar a correção residual de hipermetropia, miopia, o astigmatismo e também a vista cansada (presbiopia).

Independência parcial dos óculos
A primeira pergunta quando se considera uma lente desta dentro do olho é se não vai mais precisar usar óculos. A resposta é que, mesmo tendo uma lente dentro do olho, corrigindo todos os tipos de graus, ainda em algumas situações, o óculos vai ser necessário porque a lente artificial não tem tecnologia suficiente para suprir todas as nossas necessidades. Por exemplo, se a lente dentro do olho ficar com grau ótimo para a leitura e a pessoa trabalha com a tela do computador a 70 cm, ela terá duas opções: chegar mais perto do computador ou usar um óculos para completar aquela distância. O ideal seria colocarmos numa operação de catarata umas cinco lentes, uma para longe, outra para a televisão, outra para focalizar o computador, outra para leitura e ainda outra para enfiar agulha, ou então colocar uma lente acomodativa, mas não existe ainda uma lente com essa tecnologia para atender a todas essas necessidades e estamos longe disso.


Por que não substituir a lente da cirurgia de catarata
Uma pergunta bastante comum é: por que em vez de colocar uma lente suplementar, não se troca a lente? E a resposta é: porque há muitos incovenientes. Em primeiro lugar, para retirar a lente de dentro do olho, seria necessário um corte bem maior do que para colocar. Para implantar, é feito um corte de dois milímetros, a lente é enrolada em um cartucho e passada por ele. Mas, para retirar, não tem como dobrá-la, seria necessário um corte de cerca de seis milímetros. A segunda desvantagem é que essa lente, depois de algum tempo, adere às estruturas do olho e ao retirá-la, há o grande risco de rasgar alguma coisa. O terceiro ponto, é que se o olho está bem curado, mas apresenta um astigmatismo de dois graus, quando se abre o olho para retirar, pode se criar outro astigmatismo. 

E, por último, quando se retira uma lente e coloca outra, geralmente ela não fica no mesmo local e se ela ficar meio milímetro para frente de onde estava, vai dar diferença de mais de um grau. Uma lente de 22 graus funciona como uma lupa, se você colocar ela para frente ou para trás, aumenta ou diminui a imagem e dentro do olho é a mesma coisa, ela tem aquele grau colocado naquele lugar, se sair da posição, o grau vai alterar por causa da focalização do sistema ótico. Por isso também que os resultados da cirurgia de catarata são mais ou menos previsíveis, porque tudo vai depender de como a lente vai se posicionar dentro do olho.

Não é preciso receio
Às vezes, as pessoas têm medo de fazer por achar que as lentes suplementares são resultado de uma técnica nova, mas essa tecnologia vem sendo estudada há anos. Já há algum tempo, temos feito uma cirurgia que chamamos de piggy back. Por exemplo, quando medimos um olho pequeno, vemos que ele necessitaria de uma lente de 45 graus, como não existe, colocamos duas de 22 graus. Mas essas lentes não foram feitas com essa intenção, porque as duas são convexas, o que faz com que as duas saliências fiquem se encontrando e facilita que elas se desloquem para lá e para cá.

A experiência mostra também que ao colocar duas lentes de acrílico, elas poderão aderir uma à outra e atrapalhar a transparência. Então, quando se projetou essas lentes suplementares, elas já vieram sem os erros do piggy back, já foram feitas com o design para se acoplar à outra lente, a da catarata.

Fonte: Revista Médica



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